RELATO DE RUA 1

(laboratório de imaginação em torno de limites e esquinas da cidade de Fortaleza)

 

xeque-mate?

  

O garotinho escorria sobre a escada, felino. O sinal fechado para o trânsito. Uma sexta-feira. A calçada, o último e largo degrau. Do outro lado da rua, o banco do rei; deste lado, a torre.

O sinal verde. O carro do bacana canta pneus sobre o asfalto da tarde.

- Julinho! Julinho! – ouve-se o desespero, aproximando-se.

O garotinho estanca, as formiguinhas na beira da rua pareceram estrelinhas alvoroçadas. Ele, poço de olhos curiosos, um anjinho.

 

tirano

aqui premedito a minha essência tirana. a crueldade inválida dos sangues ancestrais. o que respiro é cruz, punhal e mortes. os assombros dos dias nublados. os resquícios do silêncio entre as dobras do estranhamento.

aqui recarrego a invalidez. e não estranho se é vertigem o que é válido. nenhum dia é arrimo no abismo que sou. a escolha do veneno goza nas entranhas. enquanto sou parto, sou feto estrangulado. e assim permaneço atento ao caos.

hoje é um dia de nadas. todas as noites, também. que importa o sonho se o milagre é o aborto da inconsciência?

 

juazeiro do norte não poderia estar em época mais propícia para o caos. festas pela cidade, romeiros, ladainhas,  escombros de sons no ar, a exposição no crato... e eu no ccbnb, com o laboratório. novidades de jazz na esquina, no barzinho do rodrigo... além das fotos do sandro, o judeu... estou já habituado a este caos entre umas doses de absinto. ainda não é chegada a vez da cicuta.

mas enquanto não chega a hora, o punhal... carinho para humanidade...

 

RELATO

RELATO DE RUA

(laboratório de imaginação em torno de limites e esquinas da cidade de Fortaleza)

 

na hora da morte, amem

 

Vejo a esquina, de dentro, do alto. E não olho para lugar algum. Mas o que vejo é da lembrança, ou do que invento:

uma barata, morta;

as formigas, quase gente aos destroços;

uma folha tremendo, resfriada pela brisa da tarde;

o poste perfilado, imponência mineral.

Poucos vêem a esquina abandonada. O quanto não se vê?! Poucos enxergam o fio que, do poste, se liga à folha. E, nele, a invisível aranha que sorri e calcula a distância ao coração do inseto de patas para o ar, arrastado.

 

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