havia tempo, havia, não estava propenso a continuar. a continuar: em mistério, em zelo, em coisa e arma. queria explodir a estrela, o caos de panapleu, o blog, explodir de novo. novo caos. mas desisti. insisti com a terceira confirmação dos "capítulos da coisa incorpórea". sei mais até quando. quando é tempo demais ou de menos. só estou em espaços de enquantos. por enquanto. o que dissolve, alivia.  pois, assim, eis-de novo, aí em baixo... dissolvido novamente.  o espasmo, eis o espasmo. o panapleu em lamas...

 

capítulos da coisa incorpórea

terceira confirmação

 

Desse, o encanto dos sonhos quadrados, a diretriz dos volumes e a necessidade de estar prenhe de luz. Pela magia das cores, pelas orgias das vítimas os nossos desejos.

 

Tu, que instigas os arcabouços e a agonia dos homens, serás a pérola perdida. Se deus dessistisse da solidão, com que encantos romperia seu instinto? De pesadelos e guardiães?

 

És tamanha sombra quanto a incerteza de toda a existência. Entre os pergaminhos mais raros te escondes e orgíaco com os segredos da nossa inviolável paixão. Tu és a sombra maldita que me repeles por nunca te alcançar.

seguindo a coisa...

capítulos da coisa incorpórea

segunda confirmação

 

Eis o exemplo: a escolha dos homens primeiros, uma leviana tentação. Qual de nós retém a certeza ao extrair pérolas da impiedosa filosofia? Uma negra virtude das entranhas...

 

Existem uns seios à mostra ante o nosso deus que há em cada um, e ele não participa da nossa sensação, ou o que venera é tão sublime que impossível é a carne.

 

Amar é uma cerimônia parecida com a gula ou a vergonha de extrair cinzas das labaredas de um amanhecer.

capítulos da coisa incorpórea

 

princípio

 

O amor dá-me um rumor de martírio e esplendor e com essas palavras a carne líquida te deleita sobre um corpo em mim de retalhos.

 

Espero tocar-te lépida ilusão quando és o sacrifício da planície dentro de nenhum abismo e te adoto barulho de fantasia

 

ou o quanto vale de amálgama entre o silêncio íntimo de vértebras pois seio em mim infeliz nunca te tenho como água na garganta.

...

És meu pesadelo fruto de um paraíso desencantado ou assim seria a morte roubando açúcares de asas em liberdade.

 

Para te amar soprei um hálito de pinho e restaurei o segredo dos dedos ao te tocar a carne (se o silêncio é

 

uma carne de nada). A morte me distraiu com palavras de nenhuma vida - sílabas ofídicas como cristais do inferno.

 

primeira confirmação

 

Há horas de nascer nesse tempo parido de veneno ensopando novos destinos... Dizes: a vida é sempre eterna a meu deus sem passaporte, ao tímido que nunca vês.

 

E ele te responde só vida não é a eternidade e te espanca com a renúncia de ser descoberto. A hora te traspassa. Piolhos de máquinas obsoletas. Tu te manifestas...

 

A cara de soluço de um anjo tingido pelo hábito das palavras. Ainda não és quem pode morrer. E resistes na tarde.

 

Te escondes dentro de nosso deus. Uma fúria sagrada arte em Teu ventre. Almas violadas somos o esboço da mentira divina.

 

caos portátil # 3
 
 
TROCA DE IDÉIAS
Centro Cultural Banco do Nordeste

Dia 2 de setembro de 2006 - de 17 às 19 horas
 
Tema:

A produção atual do Conto no Ceará

 Os escritores Jorge Pieiro e Pedro Salgueiro, junto a convidados, conversarão com o público presente sobre literatura contemporânea, com destaque para a produção do gênero Conto no Ceará, a partir da revista Caos Portátil: Um almanaque de contos. Na oportunidade, será lançado o terceiro número da publicação. 120min.

 

 
Centro Cultural Banco do Nordeste

Rua Floriano Peixoto 941 Centro

Fortaleza Ceará

Fone: (85) 3464 3108 / Fax (85) 3464 3177

 
 
na bienal

TENDA DO SULTÃO - MINIAUDITÓRIO B1
Sábado (19), às 19h30 – Mesa-redonda: A Literatura Cearense Contemporânea, com Carlos Augusto Lima, Felipe Araújo, Miguel Leocádio e Jorge Pieiro.

TENDA DO ESCRIBA – BLOCO E
Segunda, (21), às 19h30 – Travessia: Carpinejar e Jorge Pieiro.

entes

estranhos, esses pássaros com dentes vindo em minha direção. desviam no exato instante da colisão. retornam sempre àquela árvore de folhas pretas, e de lá retornam ao caminho em que o marco é meu rosto. temo que um deles perca seu controle e me atinja. estranha sensação. flecha em meu olho vazado. e se todos fizerem ao mesmo tempo? minha cabeça feito o coração divino cravado de pregos.

os pássaros estão na árvore, mas sei que já retornam naquela forma aerodinâmica. não tenho como fugir. estão brincando comigo. eles me perseguem. pois ficarei aqui e não terei mais medo. isso tem que acabar em algum momento.

estão a cinco metros do meu rosto. três, um. alguns centímetros mais e... abalo a carreira contra a flecha, seus dentes. o barulho é seco, definitivo...

o que restou do sândalo

era em mim o que dera de ser e a escolha fora quase. há instantes de estar no gesto do caminho. continuar. era o espelho que dizia coisas. agora, a cecília quebrou o encanto. o tempo é passado. não havia mais rosto.

soprou o alívio. era enfim a nova hora. sem rosto. sem cicatrizes.

na mesma noite, insistiu em não dormir. para sempre. nunca mais sonhar, desdesejar-se. se conseguiu, foi apenas no lapso da vertigem.

RELATO DE RUA 2

desafetos

  

            Sol. Burburinho. Pedestres.

            Logo ali, o barulho de um liquidificador, de vozes, de automóveis, de um dia aparentemente qualquer.

            - Sem amendoim… - surgiu de lugar algum, exigindo.

            - Só faço com amendoim! – de dentro do quiosque, virando-se da bancada em direção à voz conhecida.

            De repente, o mundo ficou com um engasgo mudo preso na garganta. Um pestanejar diante de um abismo.

            - Fazia…

            Foi como se o sol explodisse.

 

 

RELATO DE RUA 1

(laboratório de imaginação em torno de limites e esquinas da cidade de Fortaleza)

 

xeque-mate?

  

O garotinho escorria sobre a escada, felino. O sinal fechado para o trânsito. Uma sexta-feira. A calçada, o último e largo degrau. Do outro lado da rua, o banco do rei; deste lado, a torre.

O sinal verde. O carro do bacana canta pneus sobre o asfalto da tarde.

- Julinho! Julinho! – ouve-se o desespero, aproximando-se.

O garotinho estanca, as formiguinhas na beira da rua pareceram estrelinhas alvoroçadas. Ele, poço de olhos curiosos, um anjinho.

 

tirano

aqui premedito a minha essência tirana. a crueldade inválida dos sangues ancestrais. o que respiro é cruz, punhal e mortes. os assombros dos dias nublados. os resquícios do silêncio entre as dobras do estranhamento.

aqui recarrego a invalidez. e não estranho se é vertigem o que é válido. nenhum dia é arrimo no abismo que sou. a escolha do veneno goza nas entranhas. enquanto sou parto, sou feto estrangulado. e assim permaneço atento ao caos.

hoje é um dia de nadas. todas as noites, também. que importa o sonho se o milagre é o aborto da inconsciência?

 

juazeiro do norte não poderia estar em época mais propícia para o caos. festas pela cidade, romeiros, ladainhas,  escombros de sons no ar, a exposição no crato... e eu no ccbnb, com o laboratório. novidades de jazz na esquina, no barzinho do rodrigo... além das fotos do sandro, o judeu... estou já habituado a este caos entre umas doses de absinto. ainda não é chegada a vez da cicuta.

mas enquanto não chega a hora, o punhal... carinho para humanidade...

 

RELATO

RELATO DE RUA

(laboratório de imaginação em torno de limites e esquinas da cidade de Fortaleza)

 

na hora da morte, amem

 

Vejo a esquina, de dentro, do alto. E não olho para lugar algum. Mas o que vejo é da lembrança, ou do que invento:

uma barata, morta;

as formigas, quase gente aos destroços;

uma folha tremendo, resfriada pela brisa da tarde;

o poste perfilado, imponência mineral.

Poucos vêem a esquina abandonada. O quanto não se vê?! Poucos enxergam o fio que, do poste, se liga à folha. E, nele, a invisível aranha que sorri e calcula a distância ao coração do inseto de patas para o ar, arrastado.

 

laboratório do caos

 

LABORATÓRIO DO CAOS: EXPERIÊNCIAS DE LEITURA E PRÉ-PRODUÇÃO DE NARRATIVAS CURTAS

OBJETIVOS

 

Estimular a descoberta da produção literária em prosa, pela leitura analítica de contos representativos de autores, principalmente contemporâneos, favorecendo o posterior desenvolvimento de uma produção preliminar voltada para narrativas curtas.

 

Permitir o contato com várias técnicas de composição e a discussão em torno de diferentes contextos, possibilitando ao leitor ampliar sua percepção de mundo e a construção de novos sentidos.

 

Encontro 1 – O princípio do Verbo

Estímulo à leitura técnica de narrativas curtas de autores brasileiros contemporâneos, com vistas à percepção da produção e do desenvolvimento de estilos. Estímulo ao processo inicial de “escritura” por imitação.

 

Encontro 2 – Palavras, fantasia e significados

Incentivo à apreensão de indícios criativos do discurso, por meio da compreensão da representatividade das palavras, seus efeitos e desvios. Incentivo à efetivação de exercícios narrativos autorais.

 

Encontro 3 – Códigos da narrativa curta cearense contemporânea

Estímulo à investigação da expressividade, da repercussão temática e da variedade de expressão na narrativa curta moderna e pós-moderna de cearenses escritores. Discussão sobre a produção autoral em desenvolvimento.

 

Encontro 4 – O futuro da tradição

Destaque de aspectos da narrativa curta contemporânea feita no Ceará, evidenciados via revista Caos Portátil. Discussão final sobre a produção autoral em desenvolvimento

fruição do caos nas dobras de espelhos estilhaçados

 

O grito, enquanto grito, é apenas o silêncio se esvaindo. O caos, enquanto caos, é apenas a latitude maior deste silêncio. A mesma coisa é a diferença. Na verdade, o que mesmo importa? Mariposas de madeira? Jardineiros cegos? Crimes perfeitos? Quadros em movimento? Que importam?

 Talvez o que valha seja mesmo o estilhaçamento, a fragmentação de todas as realidades inocentes, graves ou mortas. O caos é crise e solução. A memória é apenas uma invenção.

 

É neste novo caos que se insinuam bênçãos para a pestilência do engano; que se vê nascerem penas dos calcanhares dos mortos; que o hipopótamo invade o jardim; que se instauram instruções para as indecisões... É neste novo caos que o começo continua sendo o fim.

 

Que importa mesmo a vida? Importa viver. O caos.

 

SERVIÇO: seu caos por míseros R$ 10,00... contato: letraemusica@secrel.com.br.

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